sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As Tercenas

            O lugar hoje conhecido na Praia da Vieira como Tercenas, parece derivar do antigo termo "taracenas", estaleiros ou armazéns. A construção de tercenas na Praia da Vieira vem da necessidade de escoamento da madeira e outros produtos do Pinhal do Rei em finais do séc. XVIII e início do séc. XIX, dado que os portos de S. Martinho do Porto e Pederneira, em virtude do assoreamento, se encontravam limitados na sua normal operacionalidade.
            Em finais do século XVIII e início do século XIX, na foz do Rio Lis na Praia da Vieira, realizaram-se trabalhos para regularizar a foz e o leito do rio, tendo em vista um melhor aproveitamento agrícola dos campos para benefício da Casa do Infantado e dos cultivadores. Estas obras viriam simultaneamente restabelecer a navegabilidade na foz do Lis.
            Com estes melhoramentos na Foz do Lis e dada a situação do porto de S. Pedro de Moel, também ele prejudicado com os constantes desgastes provocados pelo avanço do mar e pelo grande incêndio que, em 1824, destruiu uma imensa área florestal à volta de S. Pedro de Moel, D. João VI publicou, ainda em 1824, o “Regulamento Geral da Fazenda da Marinha”, no qual determinava que o embarque de madeiras do Pinhal de Leiria se fizesse na Foz do Rio Lis, onde houve que construir armazéns (tercenas) para armazenamento de madeiras, penisco, resina, pez e outros materiais a embarcar.
            Em 1862, o movimento de embarcações que vinham carregar madeiras na foz do Liz era de 75; mais tarde, com o rio novamente assoreado, o movimento foi desaparecendo e, em 1870, já só carregavam na costa, sendo o número de barcos à volta de 36 por ano; em 1890 este número era apenas 2.
            Desapareceu, assim, o embarque de produtos do Pinhal do Rei na foz do Liz.
            Em 1840, mesmo junto às Tercenas, no sítio do Caes, foi fundada uma fábrica de vidro que na altura produzia apenas vidraça e cuja laboração se sabe que durou apenas 5 anos.
            Foi também nas Tercenas, em 1859, que os Serviços Florestais utilizaram pela primeira vez um engenho de serrar a vapor. A máquina foi montada no grande armazém de madeiras, mas, mais tarde, verificou-se que essa máquina não resolvia como se previra o problema da serragem das madeiras, desconhecendo-se por quanto tempo laborou esta serração.
            Também na foz do Rio Lis, aproveitando a proximidade do Pinhal, existiu no século XIX um estaleiro de construção naval, propriedade do Eng. Manuel Luiz dos Santos. Este estaleiro, instalado no “Caes Velho”, começou a laborar por volta de 1840, desconhecendo-se ao certo as datas de início de laboração e de encerramento de actividade. Sabe-se apenas que, a meio da década de sessenta (séc. XIX), já não existia o estaleiro do Cais. A construção naval mudou-se para as Tercenas funcionando, junto aos armazéns, em telheiros onde se faziam os saveiros e outros pequenos navios. Mais tarde, devido ao assoreamento, o movimento no rio viria a desaparecer e a construção naval passaria a fazer-se na praia, junto à foz. As construções navais na Praia da Vieira viriam a diminuir em número e dimensão, desaparecendo por volta de 1899.
            Os barracões das Tercenas continuaram provavelmente a ser utilizados como armazéns até ao ano de 1941, sendo depois transferidos para a Serraria, em Vieira de Leiria, junto do edifício da extinta 14ª Administração Florestal. Em 1976 foram aproveitados pela Câmara Municipal da Marinha Grande para instalar o mercado de Vieira de Leiria. Recentemente com a inauguração do novo mercado desapareceram definitivamente.

Depósito e serração de madeiras nas Tercenas - Início do séc. XX

As Tercenas - anos 30 do séc. XX

domingo, 23 de setembro de 2012

A serração braçal

            Depois de abatida a árvore com o machado ou com a serra de punhos, esta era cortada em toros nas medidas exigidas pela futura aplicação que teriam.
            Para transformação dos toros (a que chamavam falca) em tábuas ou barrotes, a falca era içada e montada em cima de uma espécie de cavalete (a que chamavam burra). Iniciava-se então a serragem com um serrador em pé em cima da falca e o outro no solo. À custa de grande esforço físico, os 2 serradores faziam uso da grande serra braçal, puxando-a para cima e para baixo.
            Esta profissão artesanal resistiu até às primeiras décadas do século XX, apesar da existência já de serrações mecânicas. As dificuldades de transporte dos grandes troncos até essas serrações, permitiu que se continuasse a fazer a serragem de madeiras junto aos locais de corte (abate) de árvores.
            Nalguns casos, esta longeva profissão manteve-se até meio de século XX.

Serração braçal - anos 30 do séc. XX

Serração braçal - anos 40 do séc. XX

  Serração braçal - ano de 1954

Serra braçal

Recriação de serração braçal
“Viagem Medieval em Terra de Santa Maria – XX Edição”
Santa Maria da Feira – "Estaleiro Naval"

sábado, 15 de setembro de 2012

Martelos florestais

            Como medida de prevenção contra abusos que se vinham a praticar em relação à madeira retirada do Pinhal do Rei (Pinhal de Leiria), em 1751, o Marquês de Pombal no seu “Regimento para o Guarda Mor dos Pinhaes de Leiria e Superintendente da Fábrica da Madeira da Marinha” ordenava que os ferros (martelos florestais) com as marcas a marcar na madeira cortada no Pinhal de Leiria fossem, por motivos de segurança, guardados num cofre existente na “Fábrica da Madeira” no lugar do Engenho na Marinha Grande, não permitindo que andassem pelas mãos dos Mercadores fora das ocasiões precisas.
 
Martelo florestal
Patente de 11 a 26 de Outubro de 2008 na exposição "700 Anos de Floresta – Exposição Fotográfica do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)
 
Martelo florestal e marcas na madeira
Patente de 11 a 26 de Outubro de 2008 na exposição "700 Anos de Floresta – Exposição Fotográfica do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

Martelos florestais e marcas na madeira
Patente de 10 a 27 de Março de 2011 na exposição "Factos e Personalidades do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

sábado, 1 de setembro de 2012

O derrube de lenha

            No início dos anos 40 do século passado, falando da vida social das famílias marinhenses ligadas ao Pinhal do Rei, ou que de lá retiravam algum acréscimo aos seus rendimentos mesmo quando ligadas a outras fontes de rendimento como a indústria do vidro, Arala Pinto no seu livro “O Pinhal do Rei” diz-nos a dada altura:
            “A vida destas famílias é feita ainda pelo somatório do trabalho de cada um dos seus membros. O homem foi para a fábrica acompanhado do filho de 13 anos (…). O filho de onze anos foi para o pinhal derrubar lenha, a mãe ficou em casa a cuidar da alimentação do porco. A filha de 15 anos irá à tarde com a carrocita do burro ou com o carro da vaca carregar a lenha que o seu irmão foi derrubando durante o dia, subindo a pinheiros de 30 metros de altura e com um pequeno podão cortar em cada árvore uma ou duas braças secas. Essa lenha ou é para consumo caseiro ou vai ser vendida, na casa do comerciante, do operário, ou na fábrica.
            Não havendo crise, laborando toda a colmeia familiar, juntam-se no fim da semana as migalhas de todos que dão fartura, dão alegria. ”

Rapaz derrubando lenha no cimo do pinheiro
In: Pinto, A. A., 1941, “O Pinhal do Rei. Subsídios”
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