sexta-feira, 17 de abril de 2015

O regresso ao Pinhal do Rei

Há quanto tempo aqui não vinha…
E que bons tempos aqui passei.
Ai as saudades eu tinha
Deste meu Pinhal do Rei…
Mas, agora que regressei,
Quero ir visitar
Os lugares por onde andei,
Sem nenhum deixar escapar.

Quero ir de lés a lés,
Sem obstáculos ou entraves,
Escutar o belo canto das aves
E o suave crepitar do ribeiro,
Perder o Norte e o paradeiro,
Quero ir de lés a lés.

Quero dar a Volta aos Sete,
Quero ir ao Canto do Ribeiro,
Andar por aí num aceiro,
Sem nada que me inquiete.

Quero dar a volta à Mata,
Quero ver o Lis e os Campos,
Quero viajar no Comboio de Lata
E ir ao Vale dos Pirilampos.

Quero ir à Ponte Nova.
No Tromelgo quero ver o viveiro,
E, mesmo junto ao Aceiro,
Quero passar na Lagoa Cova.

Quero ir visitar as Tercenas,
A Crastinha e Água Formosa,
E, com tantas paisagens amenas
Desta floresta majestosa,
Ainda vou escrever uns poemas,
Seja em verso ou seja em prosa.

Quero ver os pinheiros-serpente
E os imponentes sementões,
Que, lançando sua semente
Semeiam novos talhões.

Mas falta-me agradecer
Aos Guardas Florestais
Que, com seu constante labor,
Com afeição e saber,
Trazem sempre num primor
Estas Matas Nacionais.

Ai Pinhal dos meus sonhos,
Ó floresta encantada,
Dás camarinhas e medronhos,
Foste sempre a mais cantada.

Tens fontes de água fresca,
Deveras pura e cristalina,
Aí qualquer um se refresca
Pelo púcaro da resina.

E, de tudo o que lembrei,
Vou então visitar…
E que bom vai ser recordar
Os lugares por onde andei.

Mas, depois de muito andar,
Afinal que vejo eu?
Valeu a pena voltar?

Sim, o que vejo eu?
Vejo estradas e mais estradas
Mas, não servem, estão esburacadas.
O Viveiro não existe
E o Comboio desapareceu.
O Pinhal está triste!
As fontes estão abandonadas
E as águas contaminadas.
O Pinhal está esquecido
E o Ribeiro poluído.
E os Guardas?      
Onde estão os Guardas?

Oh, mas que fizeram ao Pinhal do Rei?
O que fizeram ao Pinhal de outrora?
Será melhor ir-me embora…
Finda aqui o que sonhei.

E alguém me diz afinal
O porquê do que fizeram
À minha Catedral?


JM Gonçalves

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Duna Primária

            Recuando ao tempo de D. Dinis, é sabido que, o Monarca, ao incrementar o plantio do Pinhal, teve como um dos objectivos segurar as areias que os ventos arrastavam para as férteis terras do interior, prejudicando a agricultura. No entanto, dado que a maior parte das nossas costas marítimas, exceptuando as mais altas e as de penedia, era constituída por extensos desertos móveis de areia, ainda, em 1841, havia, junto ao litoral, entre a Praia da Vieira e a foz do Ribeiro de Moel, uma faixa de 2 000 hectares de areias que continuavam a invadir o Pinhal. A arborização desta faixa apenas se completou em 1909. Porém, não havendo obstáculos naturais que travassem o areamento desta faixa foi, portanto, necessário criá-lo artificialmente antes de arborizar. Esse obstáculo chamou-se Duna Primária.
            Se a construção da Duna Primária resolvia o problema da invasão do Pinhal por areias trazidas pelo vento, havia, por outro lado, que resolver o problema das zonas já areadas e desertificadas. Assim, os trabalhos desenvolveram-se em duas frentes: a construção da Duna Primária e a posterior fixação e arborização das zonas já areadas.
            A desertificação das costas marítimas não era caso único na zona do Pinhal do Rei, era um problema nacional e a sua resolução atravessou três séculos.

            ● Século XVIII
            Realizados sem sucesso os primeiros trabalhos no final do século.

            ● Século XIX
            Primeiras sementeiras metódicas no início do século.
            Trabalhos regulares a partir de meados do século.
            Intensificação dos trabalhos no final do século.
            Florestados 3000 hectares de dunas do litoral nacional.

            ● Século XX
            Conclusão dos trabalhos de fixação de dunas.
            Florestados novos 34 000 hectares de dunas do litoral nacional.

            Para formação da duna, instalou-se, a uma certa distância da mais avançada linha de marés, uma paliçada ou um ripado feito de tábuas, com cerca de 1 metro de altura. Desta forma, o ripado de tábuas evitava a passagem das areias impelidas pelo vento que, assim, se iam depositando junto ao ripado. Quando o ripado estava quase enterrado, puxava-se para cima até ficar na altura e posição primitivas. Mais areia trazida pelo vento se voltava a depositar junto às tábuas, e novamente se puxava o ripado para cima.
            Desta forma, a duna ia crescendo até atingir uma altura de 4 a 5 metros. A elevação do ripado era feita com uma espécie de alavanca elevatória a que chamavam cábrea.
            Uma vez formada a duna, procedeu-se à sua fixação empregando plantas arenosas, principalmente o estorno. Com a duna fixa, procedeu-se à fixação e arborização das zonas situadas a nascente da duna e já areadas.
            A partir da Estrada Atlântica, entrando pelo Aceiro D em direcção à costa, um pouco a sul da Praia da Vieira, podem ser vistos vestígios deste antigo ripado do Séc. XIX.

Paliçada - início do Séc. XIX

Ripado móvel- início do Séc. XX

Elevação do ripado por meio de cábrea - ano de 1908/09

A Duna Primária



Vestígios do ripado móvel do Séc. XIX

sábado, 21 de março de 2015

Casa de Guarda do N

            A cerca de 800 metros a sul de Pedreanes, entre as casas de guarda de Pedreanes e das Gaieiras, no início do Aceiro N, junto ao Aceiro Exterior do Pinhal do Rei, situa-se a Casa de Guarda do N. A sua designação deriva precisamente por estar situada no início do aceiro com o mesmo nome.
            Esta casa encontra-se ainda em razoável estado de conservação, embora, provavelmente devido ao temporal de Janeiro de 2013, nomeadamente ao nível do beirado do telhado, já mostre alguma necessidade de manutenção.
            Em 2006 ainda se podia ver a tradicional picota para tirar água do poço, desmantelada posteriormente por apresentar algum risco devido ao mau estado em que se encontrava.


A Casa de Guarda do N



O poço e a picota em 2006

sábado, 7 de março de 2015

Borboletas Nocturnas no Pinhal do Rei - 2014

            À semelhança de anos anteriores, algumas das actividades do grupo Borboletas da Marinha Grande passaram, em 2014, pelo Pinhal do Rei. Passeios diurnos ou encontros nocturnos, sempre em boa companhia, mobilizam o grupo em busca de um melhor conhecimento da fauna lepidopterológica da nossa Mata e do concelho da Marinha Grande. Objectivos idênticos, e sempre em contacto com a Natureza, levam, por vezes, o grupo a aventurar-se por esse País fora, ultrapassando as fronteiras do concelho.
            A actividade do grupo Borboletas da Marinha Grande no ano de 2014 pode ser vista aqui.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O Pinheiro do Talhão 41

            Existiram no Pinhal do Rei, noutros tempos, alguns pinheiros que, pelas suas dimensões ou forma, se destacavam na Mata.
            Ainda não há muito tempo, existiu no talhão 41 um pinheiro bravo com altura total de 30 metros; diâmetro a 1,30 m do solo (DAP – diâmetro à altura do peito) de 0,90 m; diâmetro médio da copa de 16,50 m; com a idade provável de 105 anos em 1999. Devido à sua estética, alto fuste vertical, estava classificado como árvore notável (de interesse público) e devidamente assinalada e legendada pela administração da Mata.
            Esta árvore foi gravemente afectada pelo incêndio ocorrido em 2003, acabando por ser cortada uma vez que a sua recuperação era impossível.


 O antigo Pinheiro do Talhão 41

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O Marco Real

            Há poucos dias, aproveitando uma tarde soalheira, convidativa a mais um passeio pela nossa Mata, como faço muitas vezes, saí em busca de algo que, embora tivesse conhecimento da sua existência em outros tempos, julgava já não existir no Pinhal do Rei. Porém, informações fidedignas de um amigo garantiam-me estar ainda no terreno pelo menos um exemplar. O objectivo estava traçado: procurar aquele que é, talvez, o marco mais antigo do Pinhal do Rei, um marco “Real”!
            Rumando a sul, passando pelo lugar do Tromelgo e seguindo em direcção à Praia das Paredes, verificando um antigo mapa do Pinhal, com seus aceiros, arrifes e talhões assinalados, concluo que, ao chegar à actual Estrada Atlântica, estava já muito perto do local que me foi indicado.
            No mesmo alinhamento da estrada em que seguia, e depois de atravessada a Estrada Atlântica, pus-me a pé pelo Aceiro “S” em direcção ao mar. A confirmação de que estava neste aceiro era-me dada pelo mapa, verificando o número dos talhões assinalados no terreno, e por um marco que encontrei um pouco à frente assinalando-o.
            Recordando: os aceiros são arruamentos rectilíneos, orientados no sentido Este - Oeste, com 10 metros de largura e distando entre si 750 a 1000 metros. Ao todo existem 21 aceiros, começando de Norte para Sul e estão designados de A a T.
            O Aceiro “S”, localizado na parte mais a sul do Pinhal, é, portanto, o penúltimo aceiro do Pinhal do Rei, sendo, no entanto, o último a alcançar a costa, já que o aceiro “T” é intersectado pelo Aceiro Exterior, também conhecido como Aceiro Geral, dada a configuração da fronteira sul do Pinhal.
            Poucos metros à frente já se avistava o mar, e estando eu numa zona que pouco conhecia, deixei por momentos o objectivo inicial e continuei explorando toda a zona envolvente. O final do aceiro leva-nos à parte norte da praia de Água de Madeiros.
            No retrocesso voltei ao aceiro “S”, mas poucos metros à frente enveredei por um caminho à direita, rumando a sul, que, dada a proximidade das construções em propriedades privadas existentes no local, só podia ser o Aceiro Geral, embora a sua largura não o parecesse.
            O marco “Real”, a estar onde me tinham informado, não podia estar longe. A indicação apontava para sul, sensivelmente no alinhamento do Arrife 22 que separa os talhões 318 e 319.
            Por outro lado, e porque me foi mostrada uma fotografia, levava já uma ideia concreta do que iria encontrar: o marco “Real” não estaria só. A seu lado estaria um dos marcos colocados em 1841, quando Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha demarcaram o Pinhal e desenharam a Carta Topográfica do Pinhal Nacional de Leiria e seus arredores, carta essa que viria a anteceder a “Memória sobre o Pinhal Nacional de Leiria – Suas Madeiras e Produtos Resinosos”, um documento importante lançado em 1843 pelos mesmos autores.
            Acerca dos marcos colocados em 1841 disse aqui, em 7 de Julho de 2013, que: “Estes marcos, os mais antigos que ainda, nos dias de hoje, podemos observar, encontram-se ao longo do Aceiro Exterior delimitando o Pinhal em toda a sua fronteira do lado de terra. Na inscrição colocada na face virada para o Pinhal, composta por três partes, podemos observar na sua parte superior um número que, à partida, será o número atribuído a cada marco.” Ora, no que respeita à antiguidade destes marcos, e havendo no terreno ainda um marco “Real”, está-se a ver que isto deixa de ser verdade.
            Segundo o Eng.º Arala Pinto, Chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande e Administrador do Pinhal de Leiria entre 1922 e 1951, na sua obra “O Pinhal do Rei” de 1938/39, estes marcos foram, de facto, colocados em 1841, mas a existência do mesmo tipo de numeração de marcos nas Cartas de 1769 e 1816 indicam que, provavelmente, estes substituíram outros já anteriormente colocados nos mesmos locais, os marcos com a inscrição “Real”. Ainda segundo Arala Pinto, os marcos com a inscrição “Real” devem ser datados por volta de 1796, quando, a mando da Real Junta da Fazenda, à qual competia a administração dos Pinhais Reais e o dever de informar sobre a extensão ocupada por estes e mandar fazer uma carta exacta do terreno que ocupavam, foi levantada a Planta do Pinhal de Leiria.
            De volta ao terreno, poucos metros à frente, lá estavam os dois. A informação estava correcta. Situados no talhão 333, junto ao Aceiro Geral, lado a lado, estavam os marcos com as inscrições “Real” de 1796 e “46 PR B” de 1841.
            Mas, voltando ainda às antigas Cartas de 1769, 1816 e 1841 pode verificar-se que o número nelas assinalado para a posição de cada um dos marcos é sequencial, aumentando de Norte para Sul ao longo do Aceiro Geral, circundando todo o Pinhal do lado de terra, e terminando em 46, precisamente o marco que agora encontrei.
            Isto poderá querer dizer que, a verificar-se a não existência de outro marco “Real” ainda no Pinhal, estes teriam sido na realidade substituídos pelos marcos de 1841, excepto este.
            Acerca do marco “Real”, concretamente, direi apenas que o tempo se encarregou de apagar quase por completo a sua inscrição mas, com esforço, identifica-se ainda boa parte dela.
            Uma fotografia antiga destes marcos foi feita e publicada por Arala Pinto no seu Volume I de “O Pinhal do Rei” há quase oito décadas, o que eu não sabia era que se encontravam ainda expostos para quem os quisesse visitar na “Catedral Verde e Sussurrante”.
            Agradeço ao Gabriel Roldão as informações que me prestou sobre a localização destes marcos, possibilitando-me sair, com sucesso, em sua busca.


            Coordenadas Geográficas aproximadas:

            39° 44' 20" N
            09° 02' 06" W

 
Marco assinalando o Aceiro “S”

Os marcos com as inscrições “Real”  e “46 PR B”

O marco com a inscrição “46 PR B” de 1841

 
A inscrição “Real” no marco de 1796

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Ainda sobre o temporal de 2013

            O temporal de 19 de Janeiro de 2013 tombou 63000 árvores no Pinhal do Rei, um volume de 55000 m³.
           Na zona envolvente do Ribeiro de S. Pedro de Moel, o número de árvores tombadas à data do temporal ascendeu a 450, o equivalente a 850 m³.
            Para esta zona do Pinhal, e dada a instabilidade dos terrenos, depois da tempestade, segundo um painel informativo ainda colocado junto à Fonte da Ponte Nova, e até ao fim do inverno de 2014, tombaram mais 170 árvores, cerca de 330 m³.
            Ao todo, na zona envolvente do Ribeiro de S. Pedro de Moel, no espaço de tempo referido, caíram 620 árvores, um total de 1180 m³, sucedendo que algumas ainda se encontram no terreno dada a dificuldade de as retirar das abruptas encostas que constituem as margens do ribeiro naquela zona.
            Ao lado desta placa informativa encontra-se uma outra alertando para o risco de queda de árvores naquela zona. Estando ali há já algum tempo, porém, não é demais lembrar que estamos novamente em período de chuvas e ventos fortes.



            Coordenadas Geográficas aproximadas:
            39° 46' 04" N
            09° 00' 21" W

 
Nota: A expressão “DAP” referida no texto da placa informativa quer dizer diâmetro à altura do peito, ou seja a uma altura de 1,30 metros do solo.




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