quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O Marco Real

            Há poucos dias, aproveitando uma tarde soalheira, convidativa a mais um passeio pela nossa Mata, como faço muitas vezes, saí em busca de algo que, embora tivesse conhecimento da sua existência em outros tempos, julgava já não existir no Pinhal do Rei. Porém, informações fidedignas de um amigo garantiam-me estar ainda no terreno pelo menos um exemplar. O objectivo estava traçado: procurar aquele que é, talvez, o marco mais antigo do Pinhal do Rei, um marco “Real”!
            Rumando a sul, passando pelo lugar do Tromelgo e seguindo em direcção à Praia das Paredes, verificando um antigo mapa do Pinhal, com seus aceiros, arrifes e talhões assinalados, concluo que, ao chegar à actual Estrada Atlântica, estava já muito perto do local que me foi indicado.
            No mesmo alinhamento da estrada em que seguia, e depois de atravessada a Estrada Atlântica, pus-me a pé pelo Aceiro “S” em direcção ao mar. A confirmação de que estava neste aceiro era-me dada pelo mapa, verificando o número dos talhões assinalados no terreno, e por um marco que encontrei um pouco à frente assinalando-o.
            Recordando: os aceiros são arruamentos rectilíneos, orientados no sentido Este - Oeste, com 10 metros de largura e distando entre si 750 a 1000 metros. Ao todo existem 21 aceiros, começando de Norte para Sul e estão designados de A a T.
            O Aceiro “S”, localizado na parte mais a sul do Pinhal, é, portanto, o penúltimo aceiro do Pinhal do Rei, sendo, no entanto, o último a alcançar a costa, já que o aceiro “T” é intersectado pelo Aceiro Exterior, também conhecido como Aceiro Geral, dada a configuração da fronteira sul do Pinhal.
            Poucos metros à frente já se avistava o mar, e estando eu numa zona que pouco conhecia, deixei por momentos o objectivo inicial e continuei explorando toda a zona envolvente. O final do aceiro leva-nos à parte norte da praia de Água de Madeiros.
            No retrocesso voltei ao aceiro “S”, mas poucos metros à frente enveredei por um caminho à direita, rumando a sul, que, dada a proximidade das construções em propriedades privadas existentes no local, só podia ser o Aceiro Geral, embora a sua largura não o parecesse.
            O marco “Real”, a estar onde me tinham informado, não podia estar longe. A indicação apontava para sul, sensivelmente no alinhamento do Arrife 22 que separa os talhões 318 e 319.
            Por outro lado, e porque me foi mostrada uma fotografia, levava já uma ideia concreta do que iria encontrar: o marco “Real” não estaria só. A seu lado estaria um dos marcos colocados em 1841, quando Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha demarcaram o Pinhal e desenharam a Carta Topográfica do Pinhal Nacional de Leiria e seus arredores, carta essa que viria a anteceder a “Memória sobre o Pinhal Nacional de Leiria – Suas Madeiras e Produtos Resinosos”, um documento importante lançado em 1843 pelos mesmos autores.
            Acerca dos marcos colocados em 1841 disse aqui, em 7 de Julho de 2013, que: “Estes marcos, os mais antigos que ainda, nos dias de hoje, podemos observar, encontram-se ao longo do Aceiro Exterior delimitando o Pinhal em toda a sua fronteira do lado de terra. Na inscrição colocada na face virada para o Pinhal, composta por três partes, podemos observar na sua parte superior um número que, à partida, será o número atribuído a cada marco.” Ora, no que respeita à antiguidade destes marcos, e havendo no terreno ainda um marco “Real”, está-se a ver que isto deixa de ser verdade.
            Segundo o Eng.º Arala Pinto, Chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande e Administrador do Pinhal de Leiria entre 1922 e 1951, na sua obra “O Pinhal do Rei” de 1938/39, estes marcos foram, de facto, colocados em 1841, mas a existência do mesmo tipo de numeração de marcos nas Cartas de 1769 e 1816 indicam que, provavelmente, estes substituíram outros já anteriormente colocados nos mesmos locais, os marcos com a inscrição “Real”. Ainda segundo Arala Pinto, os marcos com a inscrição “Real” devem ser datados por volta de 1796, quando, a mando da Real Junta da Fazenda, à qual competia a administração dos Pinhais Reais e o dever de informar sobre a extensão ocupada por estes e mandar fazer uma carta exacta do terreno que ocupavam, foi levantada a Planta do Pinhal de Leiria.
            De volta ao terreno, poucos metros à frente, lá estavam os dois. A informação estava correcta. Situados no talhão 333, junto ao Aceiro Geral, lado a lado, estavam os marcos com as inscrições “Real” de 1796 e “46 PR B” de 1841.
            Mas, voltando ainda às antigas Cartas de 1769, 1816 e 1841 pode verificar-se que o número nelas assinalado para a posição de cada um dos marcos é sequencial, aumentando de Norte para Sul ao longo do Aceiro Geral, circundando todo o Pinhal do lado de terra, e terminando em 46, precisamente o marco que agora encontrei.
            Isto poderá querer dizer que, a verificar-se a não existência de outro marco “Real” ainda no Pinhal, estes teriam sido na realidade substituídos pelos marcos de 1841, excepto este.
            Acerca do marco “Real”, concretamente, direi apenas que o tempo se encarregou de apagar quase por completo a sua inscrição mas, com esforço, identifica-se ainda boa parte dela.
            Uma fotografia antiga destes marcos foi feita e publicada por Arala Pinto no seu Volume I de “O Pinhal do Rei” há quase oito décadas, o que eu não sabia era que se encontravam ainda expostos para quem os quisesse visitar na “Catedral Verde e Sussurrante”.
            Agradeço ao Gabriel Roldão as informações que me prestou sobre a localização destes marcos, possibilitando-me sair, com sucesso, em sua busca.


            Coordenadas Geográficas aproximadas:

            39° 44' 20" N
            09° 02' 06" W

 
Marco assinalando o Aceiro “S”

Os marcos com as inscrições “Real”  e “46 PR B”

O marco com a inscrição “46 PR B” de 1841

 
A inscrição “Real” no marco de 1796

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Ainda sobre o temporal de 2013

            O temporal de 19 de Janeiro de 2013 tombou 63000 árvores no Pinhal do Rei, um volume de 55000 m³.
           Na zona envolvente do Ribeiro de S. Pedro de Moel, o número de árvores tombadas à data do temporal ascendeu a 450, o equivalente a 850 m³.
            Para esta zona do Pinhal, e dada a instabilidade dos terrenos, depois da tempestade, segundo um painel informativo ainda colocado junto à Fonte da Ponte Nova, e até ao fim do inverno de 2014, tombaram mais 170 árvores, cerca de 330 m³.
            Ao todo, na zona envolvente do Ribeiro de S. Pedro de Moel, no espaço de tempo referido, caíram 620 árvores, um total de 1180 m³, sucedendo que algumas ainda se encontram no terreno dada a dificuldade de as retirar das abruptas encostas que constituem as margens do ribeiro naquela zona.
            Ao lado desta placa informativa encontra-se uma outra alertando para o risco de queda de árvores naquela zona. Estando ali há já algum tempo, porém, não é demais lembrar que estamos novamente em período de chuvas e ventos fortes.



            Coordenadas Geográficas aproximadas:
            39° 46' 04" N
            09° 00' 21" W

 
Nota: A expressão “DAP” referida no texto da placa informativa quer dizer diâmetro à altura do peito, ou seja a uma altura de 1,30 metros do solo.




segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Pinhal do Rei

            Foi na sua casa de S. Pedro de Moel, implantada à beira-mar em terrenos contíguos ao Pinhal do Rei, que Afonso Lopes Vieira, ao passar grandes temporadas, viria a inspirar-se para a escrita de alguns dos seus poemas alusivos a essa grande Mata.
            O poema “Pinhal do Rei”, já aqui publicado, tem sido usado por alguns grupos em inúmeras criações musicais ou teatrais.
            A interpretação deste poema por parte do Coral Cantábilis da CGD-Leiria, inserido no seu excelente trabalho, em CD, "Percursos", trouxe-me à ideia a produção de um pequeno vídeo, com montagem de algumas fotografias, usando esta faixa musical.
            Agradeço ao Coral Cantábilis, especialmente ao seu Maestro Sr. Joaquim Vicente Narciso, a cedência da faixa “Pinhal do Rei”.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Feliz Natal

          Aos leitores e amigos deste Blog desejo um Feliz Natal e um Próspero Ano de 2015.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Pinhal do Rei, primeira mata nacional de pinheiro-bravo a obter certificação?

             Um excerto do publicado no Jornal Região de Leiria em 21 de Janeiro de 2011, e publicado on line na sua edição de 26 Janeiro, dava-nos conta da cada vez maior procura de madeira certificada por parte de compradores e, portanto, da necessidade de certificação florestal da madeira proveniente de algumas matas nacionais, inclusive do Pinhal do Rei.
             Decorridos quase quatro anos, gostaria de aqui poder dar notícias sobre o processo… Porém, apenas posso recordar a intenção e deixar a transcrição dessa notícia.

_____________________________

 
Pinhal do Rei é a primeira mata nacional certificada

             A Mata Nacional de Leiria, vulgarmente chamada Pinhal do Rei, vai ser a primeira mata nacional de pinheiro-bravo a obter certificação. O Estado espera valorizar a madeira ali produzida, que rendeu 1,8 milhões de euros por ano, em média, na última década.
            “Há carência no país de madeira certificada”, disse anteontem o secretário de Estado das Florestas, Rui Barreiro, durante uma visita ao Pinhal do Rei, no concelho da Marinha Grande, para divulgar investimentos feitos em 2010 e mostrar a renovação, ainda incompleta, da área ardida em 2003.
            De acordo com o governante, a certificação abrange também as matas nacionais do Urso e do Pedrógão e “tem importância decisiva” porque é procurada pelos compradores, garante uma produção sustentável e ajuda a preservar a fitossanidade.


IN: http://www.regiaodeleiria.pt/blog/2011/01/26/pinhal-do-rei-e-a-primeira-mata-nacional-certificada/


Corte Final Nº 3 do Talhão Nº 151 na Época de 1990/91

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Lenhas do Pinhal do Rei concedidas à indústria vidreira

            Durante muitos anos usou-se a lenha como combustível nas fábricas de vidro, razão pela qual as grandes fábricas se situavam normalmente junto das grandes florestas.
            No século XVIII, existia já, a sul do Rio Tejo, na antiga vila de Coina, a Real Fábrica dos Vidros da Coina, cuja lenha para funcionamento dos fornos vinha da zona florestal constituída pelo antigo Pinhal de Vale de Zebro e pela Quinta da Machada, hoje em dia designada Mata Nacional da Machada. Em meados do século, problemas de vária ordem terão inviabilizado e levado ao encerramento a Real Fábrica dos Vidros da Coina sendo que, por certo, entre esses problemas, estaria a ameaça de falta de madeira e lenha dado o grande consumo dos seus fornos, o que inviabilizaria a sua continuação e levaria, também, a própria cidade de Lisboa a uma eventual falta destes produtos, que tanta falta faziam à sua população.
            Assim, o Administrador Geral John (João, como por cá é conhecido) Beare (um irlandês) transferiu a fábrica para a Marinha Grande, instalando-se junto ao Pinhal do Rei em terrenos cedidos pela Coroa. A existência desta grande mancha florestal, o Pinhal do Rei, seria determinante para que, na Marinha Grande, em 1747, João Beare instalasse a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, iniciando a laboração em 1748.
            Porém, interesses, de importadores, vendedores e fabricantes estrangeiros de vidro, provavelmente económicos e semelhantes aos que anteriormente tinham acontecido em Coina, voltam-se contra a fábrica. As dificuldades aumentavam e, sem protecção de qualquer espécie, passados poucos anos, a fábrica fechou.
            Mais tarde, a convite do Marquês de Pombal, foi Guilherme Stephens (um inglês) que, em 1769, veio para a Marinha Grande restaurar a velha fábrica. Da parte da Coroa recebeu garantias para protecção e defesa da fábrica, entre as quais um empréstimo em dinheiro para o seu relançamento e a cedência gratuita de lenha do Pinhal Real.
            As lenhas para alimentação dos fornos que fundiam o vidro eram de tanta importância para a fábrica que, o Marquês de Pombal, para assegurar e garantir que não lhe faltaria esse indispensável combustível, mandou colocar no átrio da fábrica um marco em pedra com a seguinte inscrição:

 
            “Por ordem de Sua Majestade todas as lenhas do Pinhal que estão em huma légua o redor deste marco pertencem à Fábrica dos Vidros. 1776”

 
            Este marco, ainda hoje existente, encontra-se junto à entrada do edifício que foi residência de Guilherme Stephens, e que hoje acolhe o Museu do Vidro. No entanto, este histórico marco, não só passa despercebido à maioria dos visitantes da nossa cidade como também é desconhecido pela grande maioria dos marinhenses. Talvez uma pequena placa assinalando a sua existência despertasse o interesse pela busca de informação acerca do seu significado.

 
            Coordenadas Geográficas aproximadas:
            39° 44' 59" N
            08° 56' 00" W


O marco

sábado, 15 de novembro de 2014

O Observatório Astronómico Pinhal do Rei

            Existe no local conhecido como Alto dos Picotos, junto aos, ainda visíveis, vestígios da antiga Casa de Guarda da Queimada, no talhão 284 do Pinhal do Rei, um observatório astronómico que ali funcionou durante alguns anos e que, nos dias de hoje, se encontra abandonado.
            Construído no âmbito do projecto UCROA (unidade de Controlo Remoto de Observação Astronómica), levado a cabo pela ANOA (Associação Nacional de Observação Astronómica), fundada em 1995 por um grupo de astrónomos amadores da Marinha Grande, que, mais tarde, resolveram associar-se em torno de um projecto que denominaram RNOA (Rede Nacional de Observação Astronómica), este observatório foi inaugurado em 5 de Agosto de 2000.
            A escolha do local para implantação deste observatório deveu-se ao facto de o local ser um dos pontos mais altos do Pinhal do Rei, possibilitando a observação de grande parte do horizonte. Por outro lado, a proximidade de linhas telefónicas, de energia eléctrica e da estrada 242-2, entre a Marinha Grande e S. Pedro de Moel, que facilitava os acessos, foram também factores que pesaram nesta escolha.
            O edifício, que acolheu o maior telescópio robotizado do país, é constituído por uma cúpula de três metros de diâmetro e por um corpo central onde estava instalado todo o sistema informático incluindo o computador de Rastreio Automático de Meteoros.
            Estando o observatório implantado no Pinhal do Rei, o contrato de arrendamento de uma área de cerca de 300 metros quadrados para sua construção e usufruto, celebrado entre a ANOA e o Património do Estado, detentor desta mata nacional, obrigava a que a estrutura do observatório fosse precária, e ao pagamento de 250 contos anuais por um período de cinco anos.
            O projecto do Observatório Astronómico Pinhal do Rei, também conhecido pelo nome de Projecto UCROA, implicou, à época, um investimento de cerca de 18 mil contos, sendo co-financiado pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia em 12 mil, e tendo o restante ficado a cargo da ANOA e dos impulsionadores do projecto.
            A cerimónia de inauguração contou com a presença do Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, do Governador Civil de Leiria, Carlos André e do Presidente da Câmara da Marinha Grande, Álvaro Órfão, entre dezenas de outros participantes.
            O projecto do observatório e os objectivos da ANOA deixaram o Ministro e restantes entidades oficiais presentes encantadas, mostrando-se interessadas em colaborar e ajudar financeiramente, dadas as dificuldades da ANOA. Porém, vendo o estado a que chegou o projecto do Observatório Astronómico Pinhal do Rei, tais promessas, feitas em dia de inauguração, vistas hoje em dia, foram insuficientes e incapazes de se manter até hoje, revelando a incapacidade de organismos ou instituições ligadas a serviços de utilidade pública de os manter de pé ao longo dos tempos.
            Ao longo dos anos, o Observatório Astronómico Pinhal do Rei foi palco de inúmeras actividades: palestras, exposições, observações no âmbito de projectos como o Ciência Viva e Astronomia no Verão, e muitos encontros de astrónomos com caracter regional ou nacional. Em Agosto de 2001, durante três dias, recebeu a Astrofesta, cuja organização coube à Associação do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa em colaboração com a Associação Nacional de Observação Astronómica e a Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores, tendo ainda o apoio de diversas entidades locais e nacionais.
            Mas, hoje em dia, olhando a realidade, só poderemos tirar uma conclusão… É que, em breve, se nada for feito, e tudo indica que não, o Observatório Astronómico Pinhal do Rei será, apenas, mais uma ruina a juntar a tantas outras no Pinhal do Rei.


Placa indicando o Observatório Astronómico Pinhal do Rei

Rombo na cúpula do Observatório

 

            Coordenadas Geográficas aproximadas:
            39° 45' 07" N
            09° 00' 44" W

 
Fontes:
Jornal o Correio (Marinha Grande), edição de 11 de Agosto de 2000
Jornal da Marinha Grande, edição de 10 de Agosto de 2000
Jornal da Marinha Grande, edição de 17 de Agosto de 2000
http://planeta.ip.pt/~ip224640/anoa.htm

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Fábrica dos Franceses

            Lembro-me de em criança ir algumas vezes para a brincadeira, com amigos daquela época, para a fábrica dos franceses.
            Vivia nesse tempo na zona do Casal de Malta e o dito lugar de brincadeira ficava para lá (a sul) do Pinhal da Feira, assim chamado por ali se realizar mensalmente uma feira de gado, porcos. Era a feira dos porcos.
            Depois de atravessado o pinhal, atravessava-se também o caminho-de-ferro do oeste, a “linha do comboio” como nós dizíamos, apanhando-se depois um antigo carreiro em direcção a Este.
            Bem rápido chegávamos ao local, pois não era longe dali. Sei hoje que aquela zona fora outrora conhecida como Pinhal dos Cortiços. Era uma zona muito frondosa, com grandes árvores e muitas plantas, onde proliferava a cana-da-índia que nós usávamos nas nossas brincadeiras.
            Já em ruínas, havia um enorme palacete, residência do administrador da fábrica, que nós visitávamos e que tinha uma cave onde alguns dos meus amigos desciam por vezes munidos de lanternas, mas onde, eu, talvez por receio, nunca fui.
            Ao lado do palacete, já com muito pouca coisa de pé, havia as ruinas da antiga fábrica, onde também havia uma pequena cave onde já nada existia e cujo acesso se fazia por uma escada de ferro chumbada na parede. Ao lado, a enorme chaminé, ainda intacta, que os mais afoitos subiam até ao topo, dava-nos indicação de que estávamos em contexto de ruinas industriais, embora, naturalmente, naquela época, não fizéssemos ideia do que quer que fosse.
            Sei agora que se tratava das ruinas de duas antigas serrações de madeira montadas por franceses e que trabalhavam com madeira do Pinhal do Rei.
            Depois do corte dos pinheiros, com o machado ou com a serra de punhos movida por dois homens, a serragem das madeiras foi feita durante séculos por processos arcaicos, embora com algum rigor, por serradores manuais.
            Depois de abatida a árvore, esta era cortada em toros nas medidas exigidas pela futura aplicação que teriam. Era a serração braçal.
            Por volta de 1724, D. João V, tentando resolver o problema da serragem das madeiras, comprou e mandou instalar na Marinha Grande um engenho de serrar movido a vento. Devido a deficiências no seu mecanismo e por ser construído em madeira, este engenho foi destruído em 1774 por um incêndio provocado pelo atrito e nunca mais foi reconstruído.
            Também existiram engenhos de serrar movidos a força hídrica. Montados, crê-se, no século XVIII, situavam-se na Ponte Nova e em S. Pedro de Moel aproveitando a água dos ribeiros. Trabalharam até aos primeiros anos do século XIX.
            Os Serviços Florestais utilizaram pela primeira vez um engenho de serrar a vapor em 1859 no grande armazém de madeiras das Tercenas, junto à foz do Rio Liz, mas desta máquina pouco se sabe.
            Mais tarde foi adquirida uma moderna máquina (locomóvel), espécie de serração móvel a vapor, que passou a ser instalada, a partir de 1870, junto aos locais de abate dos pinheiros. Porém, por falta de estradas, havia muita dificuldade em movimentar a locomóvel pelas areias do Pinhal. Esta máquina foi depois transferida para o Parque do Engenho, onde se montou a serração mecânica. Esta fábrica teve grande importância para os Serviços Florestais e trabalhou durante muitos anos, não se sabendo exactamente a data da sua extinção.
            Mas seria a electricidade que haveria de revolucionar a indústria de serração de madeiras, apesar de, nalguns casos, a serração braçal, essa longeva profissão, se manter até meio de século XX.
            Em França, o aparecimento dos modernos motores eléctricos trouxe à indústria de serração de madeiras um grande desenvolvimento.
            Assim, mais desenvolvidos tecnologicamente, foram os franceses que vieram instalar na Marinha Grande as primeiras serrações movidas a electricidade.
            Em 1904 é fundada a Sociedade de Exploração Florestal de A. R. Duboscq, Beauvais & Pelletier (conhecida por “Fábrica dos Franceses”), de Henri Dubois. Esta fábrica, instalada a Sul da estação dos caminhos-de-ferro, estava equipada com as mais modernas máquinas existentes na época e chegou a empregar mais de 100 pessoas, trazendo grande desenvolvimento à Marinha Grande. Funcionou em pleno até 1914 mas, pouco tempo após o fim da Guerra 1914-1918, devido às dificuldades existentes, acabou por falir.
            Também montada por franceses, por volta de 1905, a C. Dupin & Cª teve as suas instalações junto da fábrica de Henri Dubois, também a Sul da estação dos caminhos-de-ferro. Esta fábrica trabalhava quase exclusivamente para exportação, embora, mais tarde, tivesse fornecido a Companhia Portuguesa de Madeiras. Funcionou até cerca do ano 1955.
            O início da laboração destas fábricas acabou por incentivar os portugueses à exploração desta indústria, sendo muitas as serrações que se montaram a partir daquela época na Marinha Grande, o que veio trazer grande desenvolvimento económico.
            Mais tarde, em 1952, também os Serviços Florestais haveriam de usar a electricidade para montar a Serração de Pedreanes.
            Da Fábrica dos Franceses já nada existe. Os terrenos foram vendidos à vidreira Santos Barosa, e tudo foi demolido para construção de novas instalações.
 
 
A Fábrica dos Franceses - ano de 1918
 
Armazenamento de madeiras na Fábrica dos Franceses
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