sexta-feira, 25 de abril de 2014

“Os Vampiros” no Pinhal do Rei

            Faço hoje uma excepção à linha de orientação temática desta humilde página para vos deixar algo distinto dessa mesma orientação mas que, creio, não melindrará o habitual leitor, pois, como se costuma dizer, é também, a excepção que confirma a regra.
            Quero deixar aqui hoje, no dia em que se comemoram os 40 anos sobre o 25 de Abril de 1974, uma singela homenagem a José Afonso, incansável lutador que se perfilou na luta contra a pobreza e contra o regime Salazarista.
            Em 1963, José Afonso, que já tinha alguns discos editados anteriormente, lança os primeiros temas de carácter vincadamente político, Os Vampiros e Menino do Bairro Negro.
            Os Vampiros, tema assumidamente contra a opressão do capitalismo daquela época, viria a tornar-se um dos símbolos da resistência anti-Salazarista.
            Nesta canção, uma pequena referência ao Pinhal do Rei e o facto de ter sido um dos primeiros temas de carácter politico e pela importância que veio a ter posteriormente na resistência ao poder político de então, levaram-me a escolhê-la para esta mensagem.
            Em relação a uma análise mais profunda à letra e à intenção desta canção, por não me sentir capacitado, não serei por certo eu a pessoa indicada para o fazer, deixando, por isso, ao critério de cada leitor. Porém, quem melhor para o fazer que o próprio José Afonso? De facto, e citando um artigo do Jornal “O Público” em 20/07/2013, na passagem do cinquentenário da primeira edição de Os Vampiros, “José Afonso escreveu no livro Cantares (ed. Nova Realidade, 1967) estas palavras para justificar a canção Os Vampiros: "Numa viagem que fiz a Coimbra apercebi-me da inutilidade de se cantar o cor-de-rosa e o bonitinho (...). Se lhe déssemos uma certa dignidade e lhe atribuíssemos, pela urgência dos temas tratados, um mínimo de valor educativo, conseguiríamos talvez fabricar um novo tipo de canção cuja actualidade poderia repercutir-se no espírito narcotizado do público, molestando-lhe a consciência adormecida em vez de o distrair. Foi essa a intenção que orientou a génese de Vampiros".
            O que o inspirou? "A fauna hiper-nutrida de alguns parasitas do sangue alheio serviu de bode expiatório. Descarreguei a bílis e fiz uma canção para servir de pasto às aranhas e às moscas. Casualmente acabou-se-me o dinheiro e fiquei em Pombal com um amigo chamado Pité. A noite apanhou-nos desprevenidos e enregelados num pinhal que me lembrou o do Rei (…)."”
            Contingências decorrentes duma evolução errónea nos últimos anos no nosso país levam a que, cada vez mais, esta canção se mantenha actual. A sua actualidade torna-a detentora de intemporalidade que, como se sabe, é uma das principais características de toda e qualquer obra de arte.
            Aqui fica a interpretação do “Zeca Afonso” na sua última actuação pública em 29 de Janeiro de 1983 no Coliseu dos Recreios em Lisboa, quando este já se encontrava muito afectado pela doença que lhe viria a ser fatal.




OS VAMPIROS


No céu cinzento
Sob o astro mudo
Batendo as asas
Pela noite calada
Vêm em bandos
Com pés de veludo
Chupar o sangue
Fresco da manada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada ( bis )

A toda a parte
Chegam os vampiros
Poisam nos prédios
Poisam nas calçadas
Trazem no ventre
Despojos antigos
Mas nada os prende
Às vidas acabadas

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada ( bis )

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada ( bis )

No chão do medo
Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos
Na noite abafada
Jazem nos fossos
Vítimas dum credo
E não se esgota
O sangue da manada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada ( bis )

São os mordomos
Do universo todo
Senhores à força
Mandadores sem lei
Enchem as tulhas
Bebem vinho novo
Dançam a ronda
No Pinhal do Rei

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo
E não deixam nada ( bis )

Se alguém se engana
Com seu ar sisudo
E lhes franqueia
As portas à chegada

Eles comem tudo
Eles comem tudo
Eles comem tudo 
E não deixam nada ( bis - 3X )___________________________________________________________


domingo, 20 de abril de 2014

A exposição “Pinhal do Rei, Pinhal de Leiria”

            Esteve patente em Leiria, na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, entre os dias 2 e 15 deste mês de Abril, a exposição “Pinhal do Rei, Pinhal de Leiria”. A exposição, para além de uma pequena mostra de livros acerca desta importante mata nacional e de alguns objectos usados em diversos trabalhos na própria mata, mostrava também um conjunto de painéis descritivos e fotobiográficos, dando a conhecer parte da história do Pinhal e algumas das importantes personalidades que contribuíram para o desenvolvimento do Pinhal do Rei.

Vista geral da exposição


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Remoção da surraipa no Pinhal do Rei

            A surraipa extraiu-se em tempos do subsolo do Pinhal do Rei. Produto orgânico, constituído por camadas compactas essencialmente de anidrido silícico, era usado nesse tempo na construção civil. Depois de rebocada com cal oferecia boa resistência às intempéries.
            Ainda, nos dias de hoje, em alguns lugares, se podem ver casas ou muros construídos com surraipa.
            Sendo útil para a construção civil foi, no entanto, necessária a sua completa remoção do Pinhal pois não permitia que as raízes das árvores penetrassem suficientemente no solo, o que as tornava raquíticas e doentes. Esse trabalho foi feito a partir do ano de 1958.




Remoção da surraipa - anos 50 do séc. XX

Antiga parede construída com surraipa e depois rebocada

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Acerca do edifício da antiga Fábrica de Resinagem

            Situado no centro tradicional da Marinha Grande, o edifício da antiga Fábrica de Resinagem, recentemente reabilitado, passou a albergar dois espaços museológicos em conjunto com alguns serviços camarários.
            O Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) do Museu do Vidro está instalado desde 19 de Outubro de 2013 no “cubo de vidro”, edifício construído no pátio interior da velha fábrica, onde, no princípio do Século XX, ao lado de um pequeno jardim e lago interiores funcionou o depósito e purificação de resinas. 
            Já a Colecção Visitável do futuro Museu da Indústria de Moldes, patente desde o passado dia 13 Dezembro, ficou instalada no próprio edifício da antiga resinagem.
            Creio não haver dúvidas de que estes novos espaços museológicos representam dois dos mais importantes sectores da indústria do nosso concelho. Porém, se nos lembrarmos da origem deste edifício, construído em 1859 para albergar a “Fábrica de Resinagem” desenvolvendo novos processos de fabrico e incrementando a indústria das resinas que em Portugal, e nomeadamente na “Fábrica Resinosa” da Marinha Grande (Engenho), vinha a definhar, gostaria também de ver este espaço acolhendo o já falado há imenso tempo Museu da Floresta ou um seu núcleo, ou ainda o Arquivo Florestal, que mais recentemente foi anunciado para o Parque do Engenho, tendo sido assinados protocolos ou parcerias, não sei bem, com alguma pompa e circunstância, mas cujos resultados práticos para a população, até hoje, são nulos, não se vislumbrando qualquer iniciativa em seu seguimento.
            É preciso não esquecer que, na Marinha Grande, a indústria do vidro, que posteriormente com o aparecimento do plástico substituindo alguns artigos em vidro levou ao aparecimento da indústria dos moldes, teve a sua origem dada a existência e a proximidade do Pinhal do Rei quando, em 1748, João Beare (um irlandês) aqui instalou a Real Fábrica dos Vidros da Marinha Grande, depois de problemas de vária ordem, nomeadamente a falta de lenhas para alimentação dos fornos, terem inviabilizado e levado ao encerramento da Real Fábrica dos vidros da Coina, sendo esta totalmente transferida e depois montada na Marinha Grande.
            Recordo ainda que este edifício, de estilo “Pombalino”, foi projectado por Bernardino José Gomes que, em 1866, chegou a ser Administrador do Pinhal do Rei e cuja fábrica também dirigiu. Esta fábrica trabalhou de início por conta dos Serviços Florestais sendo mais tarde, a partir de 1868, arrendada a particulares.
            Em 1940, com a mudança de instalações por parte do último arrendatário, deu-se o encerramento da fábrica. O edifício regressou à posse dos Serviços Florestais e em 1941 foi cedido à Câmara Municipal da Marinha Grande. Ali foram instalados em 1942 o Mercado Municipal e, mais tarde, a Biblioteca Municipal e a repartição de Registo Civil.
            Posto isto, quer se concretize ou não a instalação do Museu da Floresta ou um seu núcleo neste edifício, creio que, pelo menos, e havendo ainda, julgo eu, espaços vazios no reabilitado edifício da antiga fábrica, ou mesmo, em ultimo recurso, nos próprios corredores que são bastante largos, aqui deveria ser instalado um pequeno espaço museológico lembrando as origens deste edifício e o que foi a Fábrica de Resinagem da Marinha Grande. Paralelamente, a existência de uma pequena placa à entrada do edifício lembrando também as suas origens e para que serviu completaria a informação.
            Deste modo, para quem visita o nosso concelho, e particularmente os novos espaços museológicos marinhenses instalados neste edifício, e até, estou em crer, para muitos marinhenses, se daria a conhecer o que simboliza a palavra resinagem quando aplicada a este edifício.


Patente de 10 a 27 de Março de 2011 na exposição "Factos e Personalidades do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

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