quarta-feira, 29 de abril de 2015

Os enxertados do Pinhal do Rei

            Existem no talhão 185 do Pinhal do Rei, contíguo a sul ao Aceiro K, alguns curiosos e estranhos pinheiros bravos, resultantes de uma experiência de enxertia outrora feita neste talhão.
            Os objectivos concretos e os autores de tal experiência são desconhecidos, já o resultado está bem visível.
            Consultando o Plano de Gestão Florestal da Mata Nacional de Leiria/Pinhal do Rei, elaborado em 2010, constatamos que este talhão (parcela A) tinha, à data, uma idade de 37 anos, o que remete o nascedio para 1973, altura em que ainda se usava a sementeira artificial, feita dentro dos dois anos seguintes ao corte final.
            Ora, crê-se que, algum tempo depois, alguém, por razões desconhecidas, executou a referida experiência, enxertando em pinheiros novos, por cima, ramos de outros pinheiros.
            O resultado, visto hoje em dia, é que a parte original do tronco do novo pinheiro, que actualmente varia, entre exemplares, entre 0.5 e 1 metros de altura, apresenta uma casca (carrasca) normal, espessa, de cor castanha avermelhada e profundamente fissurada, enquanto, a parte enxertada apresenta uma casca fina, quase sem casca, típico dos ramos altos do pinheiro bravo, com os quais se fez a enxertia.
            Estes pinheiros apresentam também um fuste bastante direito.


Pinheiros enxertados

sexta-feira, 17 de abril de 2015

O regresso do Poeta ao Pinhal do Rei

Há quanto tempo aqui não vinha…
E que bons tempos aqui passei.
Ai as saudades eu tinha
Deste meu Pinhal do Rei…
Mas, agora que regressei,
Quero ir visitar
Os lugares por onde andei,
Sem nenhum deixar escapar.

Quero ir de lés a lés,
Sem obstáculos ou entraves,
Escutar o belo canto das aves
E o suave crepitar do ribeiro,
Perder o Norte e o paradeiro,
Quero ir de lés a lés.

Quero dar a Volta aos Sete,
Quero ir ao Canto do Ribeiro,
Andar por aí num aceiro,
Sem nada que me inquiete.

Quero dar a volta à Mata,
Quero ver o Lis e os Campos,
Quero viajar no Comboio de Lata
E ir ao Vale dos Pirilampos.

Quero ir à Ponte Nova.
No Tromelgo quero ver o viveiro,
E, mesmo junto ao Aceiro,
Quero passar na Lagoa Cova.

Quero ir visitar as Tercenas,
A Crastinha e Água Formosa,
E, com tantas paisagens amenas
Desta floresta majestosa,
Ainda vou escrever uns poemas,
Seja em verso ou seja em prosa.

Quero ver os pinheiros-serpente
E os imponentes sementões,
Que, lançando sua semente
Semeiam novos talhões.

Mas falta-me agradecer
Aos Guardas Florestais
Que, com seu constante labor,
Com afeição e saber,
Trazem sempre num primor
Estas Matas Nacionais.

Ai Pinhal dos meus sonhos,
Ó floresta encantada,
Dás camarinhas e medronhos,
Foste sempre a mais cantada.

Tens fontes de água fresca,
Deveras pura e cristalina,
Aí qualquer um se refresca
Pelo púcaro da resina.

E, de tudo o que lembrei,
Vou então visitar…
E que bom vai ser recordar
Os lugares por onde andei.

Mas, depois de muito andar,
Afinal que vejo eu?
Valeu a pena voltar?

Sim, o que vejo eu?
Vejo estradas e mais estradas
Mas, não servem, estão esburacadas.
O Viveiro não existe
E o Comboio desapareceu.
O Pinhal está triste!
As fontes estão abandonadas
E as águas contaminadas.
O Pinhal está esquecido
E o Ribeiro poluído.
E os Guardas?      
Onde estão os Guardas?

Oh, mas que fizeram ao Pinhal do Rei?
O que fizeram ao Pinhal de outrora?
Será melhor ir-me embora…
Finda aqui o que sonhei.

E alguém me diz afinal
O porquê do que fizeram
À minha Catedral?

JM Gonçalves

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Duna Primária

            Recuando ao tempo de D. Dinis, é sabido que, o Monarca, ao incrementar o plantio do Pinhal, teve como um dos objectivos segurar as areias que os ventos arrastavam para as férteis terras do interior, prejudicando a agricultura. No entanto, dado que a maior parte das nossas costas marítimas, exceptuando as mais altas e as de penedia, era constituída por extensos desertos móveis de areia, ainda, em 1841, havia, junto ao litoral, entre a Praia da Vieira e a foz do Ribeiro de Moel, uma faixa de 2 000 hectares de areias que continuava a invadir o Pinhal. A arborização desta faixa apenas se completou em 1909. Porém, não havendo obstáculos naturais que travassem o areamento desta faixa foi, portanto, necessário criá-lo artificialmente antes de arborizar. Esse obstáculo chamou-se Duna Primária.
            Se a construção da Duna Primária resolvia o problema da invasão do Pinhal por areias trazidas pelo vento, havia, por outro lado, que resolver o problema das zonas já areadas e desertificadas. Assim, os trabalhos desenvolveram-se em duas frentes: a construção da Duna Primária e a posterior fixação e arborização das zonas já areadas.
            Para formação da duna, instalou-se, a uma certa distância da mais avançada linha de marés, uma paliçada ou um ripado feito de tábuas, com cerca de 1 metro de altura. Desta forma, o ripado de tábuas evitava a passagem das areias impelidas pelo vento que, assim, se iam depositando junto ao ripado. Quando o ripado estava quase enterrado, puxava-se para cima até ficar na altura e posição primitivas. Mais areia trazida pelo vento se voltava a depositar junto às tábuas, e novamente se puxava o ripado para cima.
            Desta forma, a duna ia crescendo até atingir uma altura de 4 a 5 metros. A elevação do ripado era feita com uma espécie de alavanca elevatória a que chamavam cábrea.
            Uma vez formada a duna, procedeu-se à sua fixação empregando plantas arenosas, principalmente o estorno. Com a duna fixa, procedeu-se à fixação e arborização das zonas situadas a nascente da duna e já areadas.
            A partir da Estrada Atlântica, entrando pelo Aceiro D em direcção à costa, um pouco a sul da Praia da Vieira, podem ser vistos vestígios deste antigo ripado do Séc. XIX.

Paliçada - início do Séc. XIX

Ripado móvel- início do Séc. XX

Elevação do ripado por meio de cábrea - ano de 1908/09

A Duna Primária



Vestígios do ripado móvel do Séc. XIX
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