Há poucos dias,
aproveitando uma tarde soalheira, convidativa a mais um passeio pela nossa
Mata, como faço muitas vezes, saí em busca de algo que, embora tivesse
conhecimento da sua existência em outros tempos, julgava já não existir no
Pinhal do Rei. Porém, informações fidedignas de um amigo garantiam-me estar
ainda no terreno pelo menos um exemplar. O objectivo estava traçado: procurar aquele
que é, talvez, o marco mais antigo do Pinhal do Rei, um marco “Real”!
Rumando a sul, passando pelo lugar
do Tromelgo e seguindo em direcção à Praia das Paredes, verificando um antigo
mapa do Pinhal, com seus aceiros, arrifes e talhões assinalados, concluo que,
ao chegar à actual Estrada Atlântica, estava já muito perto do local que me foi
indicado.
No mesmo alinhamento da estrada em que seguia, e depois de atravessada a
Estrada Atlântica, pus-me a pé pelo Aceiro “S” em direcção ao mar. A
confirmação de que estava neste aceiro era-me dada pelo mapa, verificando o
número dos talhões assinalados no terreno, e por um marco que encontrei um
pouco à frente assinalando-o.
Recordando: os aceiros são
arruamentos rectilíneos, orientados no sentido Este - Oeste, com 10 metros de
largura e distando entre si 750 a 1000 metros. Ao todo existem 21 aceiros,
começando de Norte para Sul e estão designados de A a T.

Poucos metros à frente já se
avistava o mar, e estando eu numa zona que pouco conhecia, deixei por momentos
o objectivo inicial e continuei explorando toda a zona envolvente. O final do
aceiro leva-nos à parte norte da praia de Água de Madeiros.
No retrocesso voltei ao aceiro “S”,
mas poucos metros à frente enveredei por um caminho à direita, rumando a sul,
que, dada a proximidade das construções em propriedades privadas existentes no
local, só podia ser o Aceiro Geral, embora a sua largura não o parecesse.
O marco “Real”, a estar onde me
tinham informado, não podia estar longe. A indicação apontava para sul,
sensivelmente no alinhamento do Arrife 22 que separa os talhões 318 e 319.
Por outro lado, e porque me foi
mostrada uma fotografia, levava já uma ideia concreta do que iria encontrar: o
marco “Real” não estaria só. A seu lado estaria um dos marcos colocados em 1841,
quando Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha demarcaram o
Pinhal e desenharam a Carta Topográfica do Pinhal Nacional de Leiria e seus
arredores, carta essa que viria a anteceder a “Memória sobre o Pinhal Nacional
de Leiria – Suas Madeiras e Produtos Resinosos”, um documento importante
lançado em 1843 pelos mesmos autores.
Acerca dos marcos colocados em 1841
disse aqui, em 7 de Julho de 2013, que: “Estes marcos, os mais antigos que
ainda, nos dias de hoje, podemos observar, encontram-se ao longo do Aceiro
Exterior delimitando o Pinhal em toda a sua fronteira do lado de terra. Na
inscrição colocada na face virada para o Pinhal, composta por três partes,
podemos observar na sua parte superior um número que, à partida, será o número
atribuído a cada marco.” Ora, no que respeita à antiguidade destes marcos, e
havendo no terreno ainda um marco com a inscrição “Real”, está-se a ver que isto deixa de ser
verdade.
Segundo o Eng.º Arala Pinto,
Chefe da Circunscrição Florestal da Marinha Grande e Administrador do Pinhal de
Leiria entre 1927 e 1956, na sua obra “O Pinhal do Rei” de 1938/39, estes
marcos foram, de facto, colocados em 1841, mas a existência do mesmo tipo de
numeração de marcos nas Cartas de 1769 e 1816 indicam que, provavelmente, estes
substituíram outros já anteriormente colocados nos mesmos locais, os marcos com
a inscrição “Real”. Ainda segundo Arala Pinto, os marcos com a inscrição “Real”
devem ser datados por volta de 1796, quando, a mando da Real Junta da Fazenda,
à qual competia a administração dos Pinhais Reais e o dever de informar sobre a
extensão ocupada por estes e mandar fazer uma carta exacta do terreno que
ocupavam, foi levantada a Planta do Pinhal de Leiria.
De volta ao terreno, poucos metros à frente, lá estavam os dois. A informação estava correcta. Situados no talhão 333, junto ao Aceiro Geral, lado a lado, estavam os marcos com as inscrições “Real” de 1796 e “46 PR B” de 1841.
De volta ao terreno, poucos metros à frente, lá estavam os dois. A informação estava correcta. Situados no talhão 333, junto ao Aceiro Geral, lado a lado, estavam os marcos com as inscrições “Real” de 1796 e “46 PR B” de 1841.
Mas, voltando ainda às antigas Cartas de 1769, 1816 e 1841 pode verificar-se
que o número nelas assinalado para a posição de cada um dos marcos é
sequencial, aumentando de Norte para Sul ao longo do Aceiro Geral, circundando
todo o Pinhal do lado de terra, e terminando em 46, precisamente o marco que
agora encontrei.
Isto poderá querer dizer que, a verificar-se a não existência de outro marco “Real” ainda no Pinhal, estes teriam sido na realidade substituídos pelos marcos de 1841, excepto este.
Isto poderá querer dizer que, a verificar-se a não existência de outro marco “Real” ainda no Pinhal, estes teriam sido na realidade substituídos pelos marcos de 1841, excepto este.
Acerca do marco “Real”, concretamente, direi apenas que o tempo se encarregou
de apagar quase por completo a sua inscrição mas, com esforço, identifica-se
ainda boa parte dela.
Uma fotografia antiga destes marcos foi feita e publicada por Arala Pinto no seu Volume I de “O Pinhal do Rei” há quase oito décadas, o que eu não sabia era que se encontravam ainda expostos para quem os quisesse visitar na “Catedral Verde e Sussurrante”.
Agradeço ao Gabriel Roldão as informações que me prestou sobre a localização destes marcos, possibilitando-me sair, com sucesso, em sua busca.
Uma fotografia antiga destes marcos foi feita e publicada por Arala Pinto no seu Volume I de “O Pinhal do Rei” há quase oito décadas, o que eu não sabia era que se encontravam ainda expostos para quem os quisesse visitar na “Catedral Verde e Sussurrante”.
Agradeço ao Gabriel Roldão as informações que me prestou sobre a localização destes marcos, possibilitando-me sair, com sucesso, em sua busca.
Marco assinalando o
Aceiro “S”
Os marcos com as
inscrições “Real” e “46 PR B”
O marco com a
inscrição “46 PR B” de 1841

A inscrição “Real” no marco de 1796
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