sábado, 5 de maio de 2012

A resinagem no Pinhal do Rei

            A exploração de produtos resinosos tem as suas primeiras referências no século X, em Leiria, com a obtenção do pez (breu cru) e do piche (breu cozido) a partir da acha resinosa, na qual se estimulava a exsudação de resina e depois se submetia a combustão rápida. O pez era particularmente utilizado na calafetagem de embarcações.
            Em 1780, no reinado de D. Maria I, a indústria do alcatrão, piche e pez (cru e cozido) sofreu grande impulso e desenvolvimento. O Regulamento de 17 de Março de 1790 mandou construir em S. Pedro de Moel os fornos para a fábrica do pez e alcatrão, e regulou os fornos existentes na Fábrica da Madeira (situada no Engenho), prevenindo a destruição executada até então no arvoredo. A fábrica da Marinha Grande acabaria por ser incendiada pelas tropas francesas, o que reduziu os fornos de 20 para 16. A fábrica em S. Pedro de Moel possuía 8 fornos. Ambas produziam breus, piches, alcatrões e aguarrás de muito boa qualidade.
            A importância que tal produção representava para a Fazenda Real era tão significativa que o rei D. João VI nomeou em 1815 António Tavares Godinho, médico honorário da Real Câmara, para Director das Fábricas Resinosas, Cultura e Sementeira dos Pinhais Reais de Leiria.        No século XIX, mais propriamente em 1857, iniciou-se no Pinhal de Leiria os estudos para extracção das “gemas” resinosas, experiências realizadas pelo professor de química Sebastião Betâmio de Almeida e pelo seu colaborador Bernardino José Gomes, a quem coube prosseguir os trabalhos após o falecimento do mestre, a 6 de Julho de 1864. A ele se deve a implementação de uma nova forma de resinagem, designada como “Sistema Português”, em que as feridas eram praticadas na vertical, com entalhes profundos e um púcaro que acolhia a resina.
            Foi sob direcção de Bernardino José Gomes que em 1859 se iniciou a construção de um edifício destinado a fábrica de resinagem, a primeira destilaria de gema de pinheiro na Marinha Grande. Em 1861 deslocou-se a França com o engenheiro Manuel Raimundo Valadas, por ordem régia, com a finalidade de estudar a cultura dos pinhais de Landes e conhecer os mais importantes estabelecimentos resinosos do sul do país.
            A fábrica da resinagem, edifício com 4250 m2, foi construída em terrenos onde outrora existira um armazém pertença da Real Fábrica de Vidros. Alcançou notório desenvolvimento e nos anos 60 do séc. XIX já era reconhecida dentro e fora do país. Obteve a medalha de prata na exposição da Sociedade Agrícola do Porto em 1860, recebe a medalha de louvor na exposição de Londres em 1862 e, em 1867, é galardoada com a medalha de prata na Exposição Universal de Paris. A qualidade dos seus produtos era excelente, bastante elogiados em França como sendo capazes de competir com os melhores produtos europeus. Em 1871 destila 295 mil quilos de gema provenientes da resinagem efectuada a 276 mil árvores. Com o funcionamento deste estabelecimento o Estado deixou de fabricar na Marinha Grande o pez e o alcatrão. A despesa com a conclusão das obras do edifício fabril é coberta pelos próprios rendimentos da fábrica, um orçamento elaborado pelo engenheiro João Maria Magalhães, aprovado superiormente. Foram adquiridos terrenos e casas anexas, concluído o depósito de produtos, isolado o edifício dos prédios vizinhos através da construção de arruamentos. No seu interior existia um grande lago e jardim, e em alturas festivas a sua fachada era decorada com centenas de lanternas.
            Após a morte de Bernardino José Gomes, em 1896, a administração da fábrica foi entregue interinamente ao regente florestal José Pinto de Albuquerque. No entanto o Estado resolveu arrendá-la a particulares, por períodos de três e cinco anos. O sector da resinagem revelou um grande crescimento nos anos 20 do século XX e Portugal ocupou um lugar de destaque a nível do comércio mundial.
            Em 1926, a Companhia Nacional das Resinas contrata o mestre resineiro francês Sr. Dupard para formar resineiros na Marinha Grande segundo o “Sistema Francês” (ou de Hughes), cujas feridas eram menos profundas e mais produtivas em resina. Este método teve o apoio da Estação de Experimentação do Pinheiro-bravo que funcionava na Marinha Grande.
            Enquanto isso, as firmas arrendatárias da fábrica da resinagem sucediam-se. A última foi a União Resineira Portuguesa, cuja fabricação se encontrava instalada em Ermesinde e Pombal, e transformou a fábrica da resinagem em depósito de “gema” (que era destilada em Pombal). Este grandioso edifício deixou progressivamente de servir para os fins a que fora construído e alguns dos espaços foram cedidos, a título precário, para instalação dos Bombeiros Voluntários (1900), da Guarda Nacional Republicana (1918), da Central Eléctrica (1924), do posto médico da Cruz Vermelha (1925) e em 1939 para instalação do quartel da Legião Portuguesa. Foi definitivamente encerrado em 1940, regressando para a posse total dos Serviços Florestais que o cederam definitivamente à Câmara Municipal da Marinha Grande em 1941, para adaptação a mercado municipal, inaugurado a 3 de Maio de 1942.
            A exploração da resina e a sua destilação deixaram de ser efectuadas directamente pelos Serviços Florestais, embora represente uma valiosa fonte de receita na economia do Pinhal.



IN: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal

Patente de 10 a 27 de Março de 2011 na exposição "Factos e Personalidades do Pinhal do Rei", na Galeria Municipal da Marinha Grande – Edifício dos Arcos (Jardim Stephens)

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